Aquele começo de semana com aperto no coração

Aquele começo de semana com aperto no coração

Policial militar com o filho - Reprodução/Whatsapp
Policial militar com o filho – Reprodução/Whatsapp

Comecei a semana lidando com um assunto trágico. Passou por mim a edição de dois materiais que abordam uma história triste e que faz qualquer um ter aquele aperto no coração. Em Colorado, no Noroeste do Paraná, um pai, policial militar, cometeu o ato extremo depois de matar o filho, um bebê de apenas oito meses de idade. Foi durante o final de semana, no sábado (17), mas tive que lidar com o tema tanto no domingo (18) quanto na segunda-feira (19).

Inevitavelmente, nós, seres humanos, fazemos aquela pergunta mentalmente: “Afinal, o que levou o pai a provocar essa verdadeira tragédia?”. Ninguém nunca vai saber, mas mesmo que isso não tenha acontecido na minha ou na sua família, é preciso ponderar – e muito – a forma como tratamos o assunto. Ainda mais nós, jornalistas, que temos o dever de informar. É um caso grave: É! Mas é realmente necessário descrever como as mortes aconteceram para o leitor ou telespectador? Nem sempre…

Bebê, filho do policial militar de Colorado - Reprodução/RICTV
Bebê, filho do policial militar de Colorado – Reprodução/RICTV

Como a Polícia Civil e a própria cena do crime já deixavam claros desde o começo – e não precisava nem ser ser perito criminal para entender isso – trata-se de um homicídio seguido de um suicídio. E mesmo que tudo já venha sendo esclarecido pelo óbvio, a polícia tem o dever de abrir um inquérito para investigar. Ponto. Informação dada, dever cumprido.

Acho que cabe a imprensa somente questionar o básico depois disso, com perguntas como “O que levou o policial militar a cometer tal crime? Depressão? Estresse? Problemas familiares? Quem poderia nos falar sobre…?” e também fazer aquele velho princípio da continuidade e pensar “Bom, talvez esse crime não tenha sido motivado pelo estresse, mas sabemos que os policiais se queixam disso, por que não falar com o sindicato da categoria ou até mesmo com um psicólogo sobre?”.

AGORA a coisa da descrição da morte pode valer, no jornalismo, em casos específicos, como o do menino Davi dos Santos Vasconcelos, de 5 anos, que morreu, segundo a Polícia Civil, depois de sofrer uma agressão do pai em Mato Grosso. O portal de notícias G1 até usa uma chamada apelativa “Pai assassinou filho de 5 anos com golpe ‘mata-leão’, diz polícia em MT” – clique aqui para ler a notícia completa.

A tragédia muda de figura quando encontramos alguém que possa ser culpado por ela e que sofra algum tipo de punição entre nós. Simples assim. E não que isso seja algo que “permita” que descrições de mortes cruéis sejam feitas a torto e a direito – quando sabemos como elas realmente são – mas damos à sociedade, a partir disso, um gatilho para questionamentos sobre o que é “certo” e “errado” entre os vivos. E os pensamentos voltam a permear as nossas cabeças: “Usuário de drogas? Nossa o que a droga faz…”; “Ele tem que pagar, o crime não pode ficar impune”; “Matou uma criança, a polícia tem que investigar”.

Voltando ao caso de Colorado, os dois principais personagens dessa história já se foram. E quem fica? Os familiares, que não tem culpa nenhuma no cartório. Vale ficar espetando o coração deles com um ferro em nome de uma falsa pretensão de que os leitores ou telespectadores precisam saber de tudo? Todos os detalhes? Até mesmo os sórdidos? Quem sofrerá a pressão? Quem FICA! E detalhar esse crime é necessário? Na minha opinião, reforço que não.

A própria mãe da criança e esposa do policial militar fez uma postagem em uma rede social falando sobre o assunto. “Sabe, a dor é muito grande. Dá vontade de sair correndo gritando, me descabelando na rua. Mas eu não posso por que meu filho e meu marido não iam ficar feliz me vendo assim”, disse [texto adaptado].

Temos que nos mostrar solidários à dor de quem fica, e não abrir mais uma ferida que pode provocar, ainda, mais uma perda na sociedade. Confesso que ao lidar com os materiais fiquei com o coração partido e ponderei muitas coisas antes de prosseguir com a liberação das reportagens. Nessas horas, o editor de texto precisa ficar atento e saber identificar o que é realmente necessário ser entregue ao telespectador.

Meus sentimentos à família. E que Deus dê forças para que vocês possam seguir em frente.

Pai e filho morrem em Colorado - Reprodução/Facebook
Pai e filho morrem em Colorado – Reprodução/Facebook
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