O pedido de prisão de um ex-presidente e os nossos direitos como cidadãos

O pedido de prisão de um ex-presidente e os nossos direitos como cidadãos

Ódio, burrice e falta de informação. Junta tudo isso num pacote só. Resulta em um “militante” pela democracia. Pessoas, sejamos sinceros. Já vi gente em redes sociais a favor e contra a prisão do ex-presidente, mas quase nenhum que saiba utilizar o cérebro para pensar na consequência disso tudo que anda acontecendo ultimamente. Não é pela democracia, e muito menos pela justiça, mas pelos direitos – aqueles mesmos que eu, você e até o seu amigo, colega ou parente tem. Pensem por um minuto e pesem que a decisão de um juiz deve ser cumprida, independentemente se você acha que o negócio está certo ou errado. Justiça se questiona? Sim, mas se há uma medida de prisão, ela deve ser cumprida.

Vamos falar hipoteticamente de um ladrão de galinhas, ou daqueles bandidos que vivem aparecendo nos noticiários flagrados furtando ou roubando “coisas”. Até que se prove o contrário, todos são inocentes, certo? E quem comete um ato de violência? Também é inocente, não? Até que se prove o contrário, concordam? Confesse, você já se “doeu” por alguma situação dessas na sua vida, mesmo que nada disso tenha acontecido com você. Eu diria que na maior parte dos casos, você também ficaria a favor de uma prisão – sei que muitos negam, mas mentem para si mesmos.

Então por que motivo você, cidadão, defende a prisão dessas pessoas e não de um ex-presidente? “Ah, por que ele é um ex-presidente”, OK, mas você sabia que o mesmo direito dele em bater o pé deveria ser o SEU também? Só que você não tem esse mesmo direito em mãos – concorde ou não.

Lembrei durante esse estardalhaço desta semana de uma reportagem feita em Cascavel, no Oeste do Paraná, e repercutida no Balanço Geral Maringá sobre um trabalhador que teve uma reação contrária ao político ao esclarecer um erro judicial. Ele foi preso quase DUAS vezes, mesmo sabendo de sua inocência, como vítima. Sério, como VÍTIMA, assim como o ex-presidente diz ser… de um golpe, de um julgamento injusto, de uma conspiração, enfim.

No caso de Cascavel, o homem estava com a família em um carro estacionado ao lado de um supermercado quando foi rendido por dois bandidos. Ele conseguiu fugir e procurou a polícia para registrar a tentativa de roubo. Um dos suspeitos acabou sendo detido, e durante a audiência de custódia do envolvido no caso, um mandado judicial foi expedido em nome de um dos investigados – que seria um dos ladrões – mas foi parar no nome da vítima. Resultado? Policiais apareceram para cumprir o mandado na casa do homem que sofreu a violência. “Tinham um mandado de prisão contra a minha pessoa e eles vieram prender. Eles falaram assim: o mandado está em aberto e nós temos que te prender, temos que fazer o nosso serviço”, conta Rosimar Alves, o personagem dessa história, em entrevista para a RICTV.

Rosimar, como um cidadão de bem, pensou consigo mesmo sobre a atitude dos policiais, e que isso fazia parte do serviço deles, já que se “tinham mandado, então eles tinham todo o direito [de cumprir]”. “Me trouxeram preso. Daí eu comentei: tem coisa errada. Nunca fui preso. Nunca fiz coisa errada. Eles ligaram no fórum [e disseram] que era pra me liberar, que eu era a vítima do roubo”, diz o trabalhador.

Dois dias após a sua liberação, mais uma vez o Rosimar foi surpreendido por policiais dentro do seu local de trabalho. “Mandaram me chamar. Falaram [que eram] da polícia, [que tinham] um mandado. Eu [perguntei] quando tinha sido expedido o mandado, [falaram] dia 20 [e eu falei] então esse mandado não vale mais, por que eu já fui preso na minha casa pela Polícia Militar por esse mandado”, afirma.

Rosimar Alves tinha mandado de prisão expedido em seu nome. Mesmo inocente, ele respeitou o trabalho de policiais. – Imagem: Reprodução/RICTV

Depois de quase ser levado para a delegacia por uma segunda vez, o trabalhador contratou um advogado para evitar que fosse constrangido novamente. Eu tenho que dizer que ele é sim uma vítima, assim como ex-presidente da república brasileira diz ser, só que diferentemente do “político”, o Rosimar agiu como qualquer cidadão deveria agir: cumpriu a lei, respeitou a justiça, mesmo sabendo que existia algo errado.

Durante um evento no Rio de Janeiro, o político, Luiz Inácio Lula da Silva fez acusações graves ao trabalho da Polícia Federal, ao Ministério Público e ao juiz responsável pelo caso. “Eu quero provar minha inocência. É por isso que talvez eu seja o único político que possa olhar na frente de uma câmera e dizer: a Polícia Federal mentiu no inquérito; o Ministério Público mentiu na acusação e o Moro mentiu na sentença”, diz – confira o trecho da fala clicando aqui.

Não preciso lembrar por que Lula é investigado, nem mesmo por que ele foi condenado por aqui, já que tá todo mundo careca de saber. O meu ponto é, LULA tem a presunção da inocência, ele até pode questionar na justiça, e até processar os próprios agentes públicos envolvidos na sua “perseguição”, por que esse é um direito que deve caber a todo cidadão – DEVE, por que sabemos que sem condições financeiras, ou influências, ninguém é ninguém. Só que se há um mandado de prisão vigente, válido, ele deve ser cumprido, LULA deve ir preso e se defender do engano na justiça. Como EU e VOCÊ, cidadão.

Por conta disso, eu sou a favor da detenção. E eu vou repetir que isso não é pela democracia, e muito menos pela justiça, mas pelos direitos – aqueles mesmos que eu, você e até o seu amigo, colega ou parente tem. Ou você acha que um dia poderá se abrigar dentro de um sindicato para resolver os seus problemas? Isso abre um precedente perigoso, como os demais que já estão expostos na briga entre os dois lados da moeda.

Tem quem queira LULA preso… por querer LULA preso. Tem quem queira LULA livre… por querer LULA livre. Mas por favor, um recado aos dois lados: respeitem o seu próprio direito como CIDADÃO acima de tudo. Nada de brigar com os coleguinhas por que você só quer encrenca, tá bom?

Força Rosimar Alves! Força aos brasileiros! E força também ao Lula, que precisa respeitar os próprios cidadãos como um cidadão, e não como um político!

Foto: DanielReche – Pixabay
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