Famílias têm fome de comida, dinheiro e atenção

Famílias têm fome de comida, dinheiro e atenção

Muito tem se falado sobre “passar fome” no Brasil. Há quem diga que os trabalhadores do comércio, que tiveram que parar por conta da pandemia, são os primeiros a sofrer. Eles mesmo dizem, quando em momentos oportunos, que prefeitos, governadores e até mesmo (em um raro momento de reflexão) o presidente são os culpados disso. Essas pessoas têm todo o direito de se manifestar, falar que vai faltar comida na mesa, mas eu acho que existe uma diferença entre a necessidade individual, que pode dificultar um futuro, e o que muitas famílias vivem no presente.

Quando o assunto “passar fome” e as famílias surgiram na redação, eu fui uma das primeiras pessoas a desconfiar e questionar: “será mesmo que isso tem existido?”, quando pensei sobre o papel do Estado e dos centros de assistência social para evitar situações assim. Foi com essa mesma desconfiança que recebi de início um material produzido pelo repórter Fábio Guillen, da RIC Record TV Maringá, para edição. Partiu dele, aliás, a iniciativa de abordar o tema. Soube que igrejas e outros templos religiosos de Sarandi haviam se unido em prol de arrecadar alimentos para a comunidade e vendeu o tema entre os colegas. E essa história rendeu, meus amigos.

Como editor, comecei a assistir ao drama das famílias e a trabalhar no material. Reafirmo: ressabiado. Talvez por já ter sido contaminado com o discurso de “eu vou passar fome amanhã”, como muitos andam dizendo por aí. A primeira personagem, Josiane Silva, tinha uma despensa até cheia para uma pessoa com necessidades. Arroz e feijão era o prato do dia sob o olhar das câmeras. Só que como outros Silvas por aí, a história de Josiane nunca poderia ser resumida com um “hoje”, ou no imediatismo do editor que ainda relutava em avançar as imagens. Ela precisava de mais.

Josiane conquistou uma casa em um programa social. Ela e os quatro filhos já corriam o risco de serem despejados por uma coisa que parece ínfima (a depender da sua condição social, leitor): arcar com R$ 25 por mês. Sem comida, sem dinheiro e com vários meses de parcelas em atraso, quase que essa família fica sem um teto. Caiu a minha ficha naquele momento que o básico realmente vinha faltando. Essa família precisava de assistência. Eles sim refletem o que a falta de comida e de dinheiro representa na sociedade. A sorte é que todos ainda recebiam atenção.

“É difícil né, pra qualquer mãe. Tô vendo que uma hora vai chegar alguém do fórum ou da prefeitura e vai falar: Josiane desocupa a casa. E se eu sair daqui, vou ter que ir para rua, por que não tem para onde ir” – Josiane Silva, em entrevista à RIC Record TV

A partir daí, o relato de Fábio Guillen ganhou força maior com exemplos de personagens em situações ainda mais complicadas. Na casa da diarista Eliane do Nascimento, nem sequer o fogão funcionava por falta de gás. O que ela contou emocionou muitos telespectadores do Balanço Geral Maringá, uma vez que o filho vinha recebendo somente água com açúcar no lugar de leite. Faltava gás. Faltava leite. Faltava dignidade. Mas a atenção estava lá, com as instituições sociais do bairro.

Muitas famílias estão carecendo, sim, do básico. E essa situação é digna de cobrança de prefeitos, governadores e presidente. A COMUNIDADE teria que vir apenas para complementar uma corrente de atenção, que começa no cuidado que o próprio Estado deve ter com todos os cidadãos, que se uniram ainda mais após a reprodução da reportagem na última segunda-feira (15) e entregaram na sede da RIC Record TV, assim como em diversas igrejas e templos religiosos mais de 10 toneladas de alimentos, itens de higiene e limpeza.

Aos que reclamam de passar fome hoje, que procure também pensar nos outros que podem estar em situações ainda piores. Economicamente eu não estou bem. Ninguém está. Todo mundo tem a sua necessidade para ser atendida como indivíduo – e quanto a isso, tá tudo bem. Mas se alguém te pedir ajuda, tente fazer a diferença e não se isole em um mundo fantasioso.

A minha diferença eu creio ter feito. Ajudando a trazer uma reportagem que evidenciasse a situação. A percepção de Fábio Guillen, o olhar o repórter cinematográfico Rafael Silva, a edição de imagens de Jonathan Garcia e a transmissão da mensagem pelo apresentador Ricardo de Jesus (Salsicha) ajudaram muitas outras famílias. Assista à reportagem:

Não é algo sobre você, mas essa realidade acontece ao seu redor. É um problema social que o Brasil ainda leva em muitas de suas regiões e que foi intensificado por conta da pandemia.

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